Pelo brilho dos olhos viu
o que não viu,
imaginou.
Pelos buracos entre pessoas
era o reflexo do brilho seu
que fazia a imagem dela,
ora!
e então já a amava
Se era invenção, tudo aquilo?
claro
Mas tão tão inventado que,
mais claro do que claro,
era real.
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
paradoxal
Viver com você é como tomar sorvete com sal, andar de bicicleta na água, dançar sem música, sair nua na rua deserta. É olhar pro céu e não saber se faz sol ou se chove, é pisar em ovos e cálices de vidro sem quebrar nada. É viver na iminência de quebrar, e torcer, às vezes, pra que quebre, pra que tudo se desfaça e se faça de novo, novo. É desejar que não fosse, só pra poder ser mais. É sentir uma dor tão intensa que faz cócegas, é rir chorando, sem saber se o que é é, ou só parece. É senão uma sensação de flutuar pelos fios de cabelo sem perceber quando o vento bate de um lado ou de outro. Viver com você é levantar as sobrancelhas todos os dias, indagando sem dizer, como é que eu posso te amar sem te entender.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Sobre o amor (II)
- Ah, sim, nós temos um futuro tão lindo pela frente!
Ele balançava a cabeça concordando; virava o olho pra cima discordando. Dizia na medida certa aquela única palavra necessária "sim", e ela achava tudo lindo. Depois ele ia embora rindo doce, fingia amor no olhar, mas andava rápido e sem olhar pra trás.
- Ah, como eu te amo...eu te amo!
Ele dizia com convição o esperado "eu também", mas repetia a frase de forma enfadonha três vezes seguidas "eu também, eu também, eu também...", o que ela achava enfático e lindo. Depois encenava um beijo demorado e firme e representava bem o seu papel de macho entusiasmado. Mas em seguida virava de lado e dormia rápido pra esquecer, e sonhava que sonhava com ela, e acordava com ela e sonhava acordado com outra, com ela ao lado.
- Nós vamos casar um dia, não é amor? E ter filhos, e um cachorro, e...e..ah, eu te amo tanto!
Ele dizia o esperado como se fosse lei, e disse sim pra tudo como se fosse não, e se casou com ela como se fosse destino, e teve três filhos como se fossem dois, e comprou um cachorro como se fosse um gato, e morreu ao lado dela como se fosse feliz.
Ele balançava a cabeça concordando; virava o olho pra cima discordando. Dizia na medida certa aquela única palavra necessária "sim", e ela achava tudo lindo. Depois ele ia embora rindo doce, fingia amor no olhar, mas andava rápido e sem olhar pra trás.
- Ah, como eu te amo...eu te amo!
Ele dizia com convição o esperado "eu também", mas repetia a frase de forma enfadonha três vezes seguidas "eu também, eu também, eu também...", o que ela achava enfático e lindo. Depois encenava um beijo demorado e firme e representava bem o seu papel de macho entusiasmado. Mas em seguida virava de lado e dormia rápido pra esquecer, e sonhava que sonhava com ela, e acordava com ela e sonhava acordado com outra, com ela ao lado.
- Nós vamos casar um dia, não é amor? E ter filhos, e um cachorro, e...e..ah, eu te amo tanto!
Ele dizia o esperado como se fosse lei, e disse sim pra tudo como se fosse não, e se casou com ela como se fosse destino, e teve três filhos como se fossem dois, e comprou um cachorro como se fosse um gato, e morreu ao lado dela como se fosse feliz.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Ele gostava de guardar o cheiro dela no bolso, depois de darem as mãos. Ela gostava de guardar o cheiro dele no corpo, depois de cada abraço. Eles não se falavam, mas sabiam da intenção de guardar o cheiro um do outro. Sabiam também que guardar cheiros era só um jeito de disfarçar a vontade de guardar boca, mãos, corpo, guardar tudo um do outro, trocar tudo que podiam entre si. Sabiam que disfarçar só aumentava o desejo, e sabiam que desejo reprimido só aumentava a perfeição da idéia. A idéia. Parecia destino, mas também parecia impossível. Parecia que se trocassem tudo que podiam entre si nada mais faria sentido, a não ser trocarem tudo aquilo pro resto da vida. Eles não queriam, agora, nada pro resto da vida. Então quando por acaso parecia que as coisas estavam caminhando para a troca, eles recuavam, disfarçavam, fingiam que era amizade aquilo, e continuavam guardando cheiros sem dizer nada, porque nem era preciso.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Sobre o amor (I)
- olha pra mim e diz: não, nós não temos futuro.
Ela olhava, não dizia nada. Depois fugia de mim, fingia ódio no olhar, mas andava meio caindo pra frente, era amor aquilo, queria jorgar-se em meus braços, dava pra ver.
- olha pra mim e diz que não me ama.
Ela não dizia nada, olhava com tristeza e fugia de mim. Mas ela me amava sim, eu sentia pelo jeito de andar, despencando pro lado esquerdo, bem perto de mim.
- criatura, por que não diz uma palavra de amor, nunca?
Ela não dizia, não disse, nunca vai dizer, mas se inclina toda pra traz, quando me vê, como se estivesse fugindo. Eu sei, porém, que no fundo ela está é se declarando ao contrário.
Ela olhava, não dizia nada. Depois fugia de mim, fingia ódio no olhar, mas andava meio caindo pra frente, era amor aquilo, queria jorgar-se em meus braços, dava pra ver.
- olha pra mim e diz que não me ama.
Ela não dizia nada, olhava com tristeza e fugia de mim. Mas ela me amava sim, eu sentia pelo jeito de andar, despencando pro lado esquerdo, bem perto de mim.
- criatura, por que não diz uma palavra de amor, nunca?
Ela não dizia, não disse, nunca vai dizer, mas se inclina toda pra traz, quando me vê, como se estivesse fugindo. Eu sei, porém, que no fundo ela está é se declarando ao contrário.
segunda-feira, 6 de março de 2006
beijo na careca
Outro dia passei na esquina da sua casa, naquela ladeira. Pensei então em interfonar e dizer que estava ali embaixo, sozinha. Mas talvez seus pais atendessem, ou talvez fosse muita cara de pau, desisti. Achei que era melhor ligar antes Oi, lembra de mim ainda? É que estou na esquina da sua casa, pensei que.... Mas achei que você podia não se lembrar de mim, desisti. Fiquei ali na esquina então, tentando te espionar pela janela. Pensei que você pudesse dali a pouco colocar a cabeça para fora, e talvez me visse que nem barata tonta andando de um lado pro outro da calçada Nossa! Fazendo o que por aqui? Sobe, estou sozinho... Mas achei que não estaria sozinho, e só de pensar em imaginar tal situação, desisti. Sentei na sarjeta, olhando pro tal prédio. Pensei em deixar um bilhete, mas seria romântico demais; depois pensei em esquecer alguma coisa por ali só pra você se lembrar de mim, mas você não notaria. Pensei de repente em ir embora, mas você já estava impregnado na mente e não tinha jeito, desisti. Resolvi ser normal e perguntar ao porteiro se você estava em casa, e ele me disse sorrindo torto pelo canto da boca:
- ixi moça, já faz 2 meses que ele se mudou!
Então meus olhos quiseram beijar a careca daquele porteiro, mas apenas sorri de volta, cheia de gratidão. Fechei o portão e desci a ladeira saltitando, porque não te conhecer é bem mais fácil do que sentir a sua falta.
- ixi moça, já faz 2 meses que ele se mudou!
Então meus olhos quiseram beijar a careca daquele porteiro, mas apenas sorri de volta, cheia de gratidão. Fechei o portão e desci a ladeira saltitando, porque não te conhecer é bem mais fácil do que sentir a sua falta.
terça-feira, 8 de novembro de 2005
Esconde-esconde
O menino corre
A menina hesita
O menino se esconde
A menina já sabe onde
O menino foge
A menina pensa
Corre volta cansa
Ah!, suspira
Meia volta e susto!
O menino grita
A menina ri
O menino tem medo
A menina vem cedo
Rápido vai alcança estica o braço...
PEGA!
O menino segue os passos da menina,
Que o segura por um entrelaçar de mãos.
São assim todos os encontros,
menina e menino brincando de se descobrir.
No vai e vem a menina se descobre dentro dele
de lá pra cá,
pouco a pouco,
assim como descobre ele dentro de si.
Perigo é a menina descobri-lo todo,
e de tanto conhecê-lo não querer mais o seu jogo.
Manhã almoço pôr-do-sol
Almoço pôr-do-sol manhã
Pôr-do-sol manhã almoço
Menina e menino insaciáveis.
Manhã almoço pôr-do-sol
Menina manhã menino
Menino pôr-do-sol menina
Menina e menino almoço.
Descobrindo-se.
A menina está sempre um passo a frente.
Além fez-se noite quente,
menino descoberto pela menina,
ainda um pouco coberta.
É que o menino não sabe descobrir direito...
Deitam na grama úmida
- choveu um bocado -
Olham o céu
- outrora estrelado –
Cantam um samba
- inventado –
E abraçam-se calados.
A menina então,
o descobre por inteiro
e de beijos o cobre.
O menino,
que tanto correu fugiu escondeu,
admite enfim
que só se descobre nela,
com ela,
para ela,
assim...
A menina hesita
O menino se esconde
A menina já sabe onde
O menino foge
A menina pensa
Corre volta cansa
Ah!, suspira
Meia volta e susto!
O menino grita
A menina ri
O menino tem medo
A menina vem cedo
Rápido vai alcança estica o braço...
PEGA!
O menino segue os passos da menina,
Que o segura por um entrelaçar de mãos.
São assim todos os encontros,
menina e menino brincando de se descobrir.
No vai e vem a menina se descobre dentro dele
de lá pra cá,
pouco a pouco,
assim como descobre ele dentro de si.
Perigo é a menina descobri-lo todo,
e de tanto conhecê-lo não querer mais o seu jogo.
Manhã almoço pôr-do-sol
Almoço pôr-do-sol manhã
Pôr-do-sol manhã almoço
Menina e menino insaciáveis.
Manhã almoço pôr-do-sol
Menina manhã menino
Menino pôr-do-sol menina
Menina e menino almoço.
Descobrindo-se.
A menina está sempre um passo a frente.
Além fez-se noite quente,
menino descoberto pela menina,
ainda um pouco coberta.
É que o menino não sabe descobrir direito...
Deitam na grama úmida
- choveu um bocado -
Olham o céu
- outrora estrelado –
Cantam um samba
- inventado –
E abraçam-se calados.
A menina então,
o descobre por inteiro
e de beijos o cobre.
O menino,
que tanto correu fugiu escondeu,
admite enfim
que só se descobre nela,
com ela,
para ela,
assim...
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