terça-feira, 11 de outubro de 2016

do ano, migas

Do chão de fato ninguém passou. Na verdade, ao experimentar a concretude da pedra fria, perceberam que precisavam da aspereza, do gosto cinza, da lama que se espalhava entre os dedos. Viver era uma urgência, e isso implicava, também, o contato diário e íntimo com o chão. Tinham pedido por isto: um ano igual a bolo de rolo – enrolado e gostoso. Tiveram. O mundo é tão vasto, diziam, de cara na pedra fria, pra ver se congelavam também as tristezas e reinventavam o olhar. Lá de baixo – no chão – foi que começaram a perceber os pés, todos eles enlameados, naquela dança estranha e inesperada. Perceberam também os nozinhos todos que se formavam e se enrolavam e se transformavam a todo tempo. O mundo é tão vasto, e essa imensidão de possibilidades, e o chão, e o céu. Deitadas de costas no asfalto, pensaram que o céu, tão amplo, tão infinito, lá onde dizem que é o limite, só fazia sentido em referência ao chão, duro e frio. Onde tem chão, tem céu, e essa imensidão que fere e faz renascer. Chão-céu, todas nós, os nós.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

lembrete:

Mimar-se com pequenos cuidados.

As cores, as formas, os comos dos quês, tudo importa.

Usar as mãos para acarinhar o que fica no ar, trazer à vida o que faz bem.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

tempo

Eu queria chegar antes da chuva,
não errar tanto,
mastigar mais devagar.
Mas, no entanto, contudo, entre-tantos.
Gostando dos erros calculados,
daqueles que avisam a gente do que já é nosso,
eu me molho na chuva,
erro a conta-gotas,
engulo sem pensar.
Eu queria passar a mão no tempo,
Mas ele insiste em divagar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Errava a conta-gotas, como para não perder o costume.  Gostava de poder dizer a si mesma, quando o erro se escancarava sem medo, um sonoro “eu não te disse?”, confirmando sua já suspeita e óbvia ideia de que o que quer que tivesse planejado ia dar certamente errado.  Previa o erro. Dizia: ah, hoje é dia de errar. Planejava, então, minuciosamente, qual seria o equívoco do dia. É errando que se aprende, pensava. A vida taí pra gente errar, justificava. Nessa semana tinha errado quatro vezes em quatro dias seguidos, com quatro pessoas diferentes.

O primeiro, ainda tímido, foi erro de cálculo. Logo notou o equívoco e consertou o erro. Talvez. Não, maquiou o erro, antes. Soterrou o erro. Depois, ganhando força, o erro passou pra ação. O resultado foram manobras que não queria fazer, mas fez, esperando por respostas que achava que tanto faziam, mas não tanto fizeram, nem pouco fizeram. Nada fizeram. No silêncio que se seguiu ao estrondoso e terrível nada, reparou que tinha imaginado que o erro seria inofensivo. A pobrezinha. Imaginara que, pouco se importando com o resultado daquela manobra, que lhe era totalmente indiferente, não sofreria. Sofrera.

No terceiro dia ela queria muito errar, e planejou direitinho pra que tudo fosse bastante ruim. Foi um erro completo, ela diria. Pensou errado, calculou errado, executou errado. O resultado? A nítida sensação de que precisa errar rude para perceber certas coisas.

No quarto e último dia da avalanche de más ideias, curiosamente, não estava preparada. Como se os outros três erros não tivessem servido de nada. É errando que se aprende, mas ela não aprendia, ela reforçava o erro com um novo erro. Nesse dia, confiante do lado bom da vida, não previu nada. Muito pelo contrário, imaginou um glorioso e sorridente acerto. Acometida por enorme surpresa, quando mais uma vez se viu diante do já tão famoso o que é que está acontecendo, entendeu que o eterno retorno do erro, independente da situação e do outro, estava dentro dela. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

ré menor



Andava como quem espreita, em busca de calor. Dizia que era saudade do filho, e quem o via notava o corpo oco de longe. Chegava quase sumido nos lugares, cumprimentava com um aceno, quase sem querer. Era oco de tanta saudade. Tinha o olhar triste, como quem acaba de receber notícia ruim, e no entanto a vida só lhe trazia sortes. Aos que percebiam, discretos, que existia ali uma busca, uma porta se fechava. Não era possível compartilhar calor com aquele corpo, já oco de tudo, sem chance de se aquecer. Nas frustradas tentativas de aconchegar aquele coração, o que acontecia parecia ser o contrário. Quanto mais se tentasse aproximar, mais arredio o corpo ficava.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

noite




O sonâmbulo
refletindo
fala o preâmbulo
rindo

o companheiro,
ao lado,
não vê acordado
o que ele,
desamparado,
enxerga dormindo

terça-feira, 7 de junho de 2016

memórias



Guardar as lembranças em uma caixinha enfeitada, pintada à mão.
Louvá-la quando convém.
Não lustrar demais; deixar poeira onde poeira tem.
A caixinha não mede espaço, cabe o que vem
– ventania, disritmia também.
Escolher bem, pois, o momento em que se cristaliza uma recordação.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

mudança



Sua casa não é minha, mas me vejo em cada quadro, canto, quarto, quina, coisa. Sua casa não é minha, mas tô nela em forma de vaso, de flor, de cor. Nos copos de pinga, no teto que pinga, na tinta que respinga. Nas almofadas, nas molduras, nas velas, nas panelas. Tô nas janelas. Sua casa não é minha, mas é tão minha. Tô na mancha do sofá, no arranhado da porta, no amassado do fogão. Tô no chão, tô no colchão. Tenho me retirado dela como que em vão. Às vezes esqueço um suspiro, noutras respiro. Tem dias que nada levo, só relevo. De pouco em pouco vi que, na tentativa de me tirar do que não é meu, mas me tem, me desfiz de mim. Confuso? Sim. Sua casa não é minha, mas estou nela tanto que, na ânsia de me colocar na minha própria casa, achei que precisava me subtrair da sua. E que surpresa boa quando entendi que, em questão de alma, diferente do corpo, dá pra se estar em dois lugares ao mesmo tempo. Minha casa é muito minha, mas tem um eu meu que mora na sua.

Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...