domingo, 4 de junho de 2017

novas formas de estar

Hoje ninguém veio, mas
não estive sozinha.
Da sala à cama, eu
na cama calma eu e 
o vão que ultrapassa a
medida da cama com
a marca do corpo que
não cabe, mas fica.
Deito ao lado como se ainda.
Hoje nada aconteceu, no entanto
o vão da cama é quente como se
há pouco habitado e dura
um dia inteiro como se
acarinhando sem estar ou
estando de todas as formas.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

dança

os braços são
sombras só
sobras dos ombros os
braços balançam sobre
a sombra que
lança-se no chão sem
sinal de laço sem
sombra de abraço os
braços estão só
no espaço mas
sozinhos não, que
atados ao corpo e
colados à pele e
atentos ao sol, ao som, ao sal
mudança sensacional
os braços não são
só sombras quando
sobre, ou sob
outros ombros



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sim

Não ao homem-cilada
homem-fachada
homem-nada.
Eu gosto de quem fica.
Não ao sinal vermelho;
amarelo;
verde-com-acidente-à-vista;
azul:
visualizado-ignorado-fim.
Quero mensagem-afim.
Não à fofura-educação
oi linda sua linda que linda!
Tua fala padrão
pra não pegar na minha mão.
Não mais noite-verão,
manhã-deserto.
Quero você desperto,
vai que dá certo?
Não ao encontro-ampulheta
a tua silhueta só
lindo rosto, pó
tic-tchau
Quero encontro real.
Não ao homem-espelho
fala fala fala-dor.
Adoro quem está quando é
e quem fica quando está.
Que se na minha mão
a tua enrosca,
algum motivo há.
Aposta?






segunda-feira, 8 de maio de 2017

do sofá

da janela da sala dançam
as árvores do vizinho, são
folhas em movimento que
de lá pra cá uivam
de cá pra lá ventam
as árvores remexem
no prédio ao lado
da janela minha vejo
as árvores-pares e
o barulho dos pés-vento

domingo, 19 de março de 2017

do encanto

Eu poderia falar
Do primeiro encontro, no bar
Horas a conversar
A sintonia pairar

Eu poderia falar
Do segundo encontro,
a bailar sem parar
Do tempo voar

Eu poderia falar
Do terceiro e quarto e quinto
Dos ímpares e dos pares
Todos em par.

Mas se eu falasse
Se eu contasse e relembrasse
Vocês talvez fossem se entediar
- Talvez invejar; talvez amar -

Não vou então contar
Das sutilezas
Das miudezas 
Das belezas

Não vou tampouco narrar
O alento bão,
a mão na mão,
os pés fora do chão

Não vou enfim revelar
e nem mesmo deixar no ar
Que o nosso encontro
É sempre festejar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

tem um poema aqui

Tem um poema entalado aqui
às vezes sai em forma de cor
às vezes dor
De coração já nem falo
tem um poema em cada calo
às vezes é choro
às vezes, samba
às vezes é fácil
noutras, descamba
Tem um poema, caramba
às vezes dorme ao lado
às vezes virado
às vezes revira-
volta
Tem um poema-revolta
às vezes tá em você
às vezes vai sabê
às vezes sai no grito
noutras, mito
Tem um poema calado
que sai no olhar que dura
dentro, fora, parado
Tem um poema e perdura
às vezes no tato
noutras, no olfato
Tem um poema no fato
da tua ausência
da tua presença
Tem um poema entre (os) nós
a sós
Tem um poema em cada passo
- compasso -
Tem um poema,
repasso.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

do ano, migas

Do chão de fato ninguém passou. Na verdade, ao experimentar a concretude da pedra fria, perceberam que precisavam da aspereza, do gosto cinza, da lama que se espalhava entre os dedos. Viver era uma urgência, e isso implicava, também, o contato diário e íntimo com o chão. Tinham pedido por isto: um ano igual a bolo de rolo – enrolado e gostoso. Tiveram. O mundo é tão vasto, diziam, de cara na pedra fria, pra ver se congelavam também as tristezas e reinventavam o olhar. Lá de baixo – no chão – foi que começaram a perceber os pés, todos eles enlameados, naquela dança estranha e inesperada. Perceberam também os nozinhos todos que se formavam e se enrolavam e se transformavam a todo tempo. O mundo é tão vasto, e essa imensidão de possibilidades, e o chão, e o céu. Deitadas de costas no asfalto, pensaram que o céu, tão amplo, tão infinito, lá onde dizem que é o limite, só fazia sentido em referência ao chão, duro e frio. Onde tem chão, tem céu, e essa imensidão que fere e faz renascer. Chão-céu, todas nós, os nós.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

lembrete:

Mimar-se com pequenos cuidados.

As cores, as formas, os comos dos quês, tudo importa.

Usar as mãos para acarinhar o que fica no ar, trazer à vida o que faz bem.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

tempo

Eu queria chegar antes da chuva,
não errar tanto,
mastigar mais devagar.
Mas, no entanto, contudo, entre-tantos.
Gostando dos erros calculados,
daqueles que avisam a gente do que já é nosso,
eu me molho na chuva,
erro a conta-gotas,
engulo sem pensar.
Eu queria passar a mão no tempo,
Mas ele insiste em divagar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Errava a conta-gotas, como para não perder o costume.  Gostava de poder dizer a si mesma, quando o erro se escancarava sem medo, um sonoro “eu não te disse?”, confirmando sua já suspeita e óbvia ideia de que o que quer que tivesse planejado ia dar certamente errado.  Previa o erro. Dizia: ah, hoje é dia de errar. Planejava, então, minuciosamente, qual seria o equívoco do dia. É errando que se aprende, pensava. A vida taí pra gente errar, justificava. Nessa semana tinha errado quatro vezes em quatro dias seguidos, com quatro pessoas diferentes.

O primeiro, ainda tímido, foi erro de cálculo. Logo notou o equívoco e consertou o erro. Talvez. Não, maquiou o erro, antes. Soterrou o erro. Depois, ganhando força, o erro passou pra ação. O resultado foram manobras que não queria fazer, mas fez, esperando por respostas que achava que tanto faziam, mas não tanto fizeram, nem pouco fizeram. Nada fizeram. No silêncio que se seguiu ao estrondoso e terrível nada, reparou que tinha imaginado que o erro seria inofensivo. A pobrezinha. Imaginara que, pouco se importando com o resultado daquela manobra, que lhe era totalmente indiferente, não sofreria. Sofrera.

No terceiro dia ela queria muito errar, e planejou direitinho pra que tudo fosse bastante ruim. Foi um erro completo, ela diria. Pensou errado, calculou errado, executou errado. O resultado? A nítida sensação de que precisa errar rude para perceber certas coisas.

No quarto e último dia da avalanche de más ideias, curiosamente, não estava preparada. Como se os outros três erros não tivessem servido de nada. É errando que se aprende, mas ela não aprendia, ela reforçava o erro com um novo erro. Nesse dia, confiante do lado bom da vida, não previu nada. Muito pelo contrário, imaginou um glorioso e sorridente acerto. Acometida por enorme surpresa, quando mais uma vez se viu diante do já tão famoso o que é que está acontecendo, entendeu que o eterno retorno do erro, independente da situação e do outro, estava dentro dela. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

ré menor



Andava como quem espreita, em busca de calor. Dizia que era saudade do filho, e quem o via notava o corpo oco de longe. Chegava quase sumido nos lugares, cumprimentava com um aceno, quase sem querer. Era oco de tanta saudade. Tinha o olhar triste, como quem acaba de receber notícia ruim, e no entanto a vida só lhe trazia sortes. Aos que percebiam, discretos, que existia ali uma busca, uma porta se fechava. Não era possível compartilhar calor com aquele corpo, já oco de tudo, sem chance de se aquecer. Nas frustradas tentativas de aconchegar aquele coração, o que acontecia parecia ser o contrário. Quanto mais se tentasse aproximar, mais arredio o corpo ficava.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

noite




O sonâmbulo
refletindo
fala o preâmbulo
rindo

o companheiro,
ao lado,
não vê acordado
o que ele,
desamparado,
enxerga dormindo

terça-feira, 7 de junho de 2016

memórias



Guardar as lembranças em uma caixinha enfeitada, pintada à mão.
Louvá-la quando convém.
Não lustrar demais; deixar poeira onde poeira tem.
A caixinha não mede espaço, cabe o que vem
– ventania, disritmia também.
Escolher bem, pois, o momento em que se cristaliza uma recordação.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

mudança



Sua casa não é minha, mas me vejo em cada quadro, canto, quarto, quina, coisa. Sua casa não é minha, mas tô nela em forma de vaso, de flor, de cor. Nos copos de pinga, no teto que pinga, na tinta que respinga. Nas almofadas, nas molduras, nas velas, nas panelas. Tô nas janelas. Sua casa não é minha, mas é tão minha. Tô na mancha do sofá, no arranhado da porta, no amassado do fogão. Tô no chão, tô no colchão. Tenho me retirado dela como que em vão. Às vezes esqueço um suspiro, noutras respiro. Tem dias que nada levo, só relevo. De pouco em pouco vi que, na tentativa de me tirar do que não é meu, mas me tem, me desfiz de mim. Confuso? Sim. Sua casa não é minha, mas estou nela tanto que, na ânsia de me colocar na minha própria casa, achei que precisava me subtrair da sua. E que surpresa boa quando entendi que, em questão de alma, diferente do corpo, dá pra se estar em dois lugares ao mesmo tempo. Minha casa é muito minha, mas tem um eu meu que mora na sua.

novas formas de estar

Hoje ninguém veio, mas não estive sozinha. Da sala à cama, eu na cama calma eu e  o vão que ultrapassa a medida da cama com a marca do corpo...