terça-feira, junho 28, 2016

ela
queria
marry

ele
queria
Mary

sexta-feira, junho 17, 2016

noite




O sonâmbulo
refletindo
fala o preâmbulo
rindo

o companheiro,
ao lado,
não vê acordado
o que ele,
desamparado,
enxerga dormindo

terça-feira, junho 07, 2016

memórias



Guardar as lembranças em uma caixinha enfeitada, pintada à mão.
Louvá-la quando convém.
Não lustrar demais; deixar poeira onde poeira tem.
A caixinha não mede espaço, cabe o que vem
– ventania, disritmia também.
Escolher bem, pois, o momento em que se cristaliza uma recordação.

quinta-feira, abril 14, 2016

mudança



Sua casa não é minha, mas me vejo em cada quadro, canto, quarto, quina, coisa. Sua casa não é minha, mas tô nela em forma de vaso, de flor, de cor. Nos copos de pinga, no teto que pinga, na tinta que respinga. Nas almofadas, nas molduras, nas velas, nas panelas. Tô nas janelas. Sua casa não é minha, mas é tão minha. Tô na mancha do sofá, no arranhado da porta, no amassado do fogão. Tô no chão, tô no colchão. Tenho me retirado dela como que em vão. Às vezes esqueço um suspiro, noutras respiro. Tem dias que nada levo, só relevo. De pouco em pouco vi que, na tentativa de me tirar do que não é meu, mas me tem, me desfiz de mim. Confuso? Sim. Sua casa não é minha, mas estou nela tanto que, na ânsia de me colocar na minha própria casa, achei que precisava me subtrair da sua. E que surpresa boa quando entendi que, em questão de alma, diferente do corpo, dá pra se estar em dois lugares ao mesmo tempo. Minha casa é muito minha, mas tem um eu meu que mora na sua.

segunda-feira, novembro 16, 2015

amor engavetado



Tem tanta coisa no meu armário.
Hoje mesmo achei você, disfarçado de papel:
5 cartas escritas à mão.
Junto delas, amor empoeirado.
No meu armário não cabe mais nada,
Mas amor eu sempre encontro um jeito de guardar.

segunda-feira, setembro 21, 2015

fresta



Toc, toc, toc, bateu com força. Inusual, dessa vez abriram. Entra, tô aqui, tô pronto. Estranho, pensou, porque ninguém tá quando quer. Tava lá, mesmo, inteiro. Sem se deixar notar, arregalou os olhos; assustou. Balançou de leve a cabeça em tom incrédulo. Como é que pode, de fato, se dizer o que se quer? E estar, sem meio mais ou menos, quando se quer? Nem mesmo aceitou tanta inteireza. Pra se proteger, né?  Do quê? Do quê. Tempos depois, naquela hora em que tudo já é tão memória que de repente ganha clareza, enxergou. Por que não ficou, afinal? Teve medo, fugiu tal qual ladrão na calada da noite. A gente vive é misturando o que se quer com o que se devia querer, dizendo hoje o que era ontem, insistindo num amanhã que não devia. A gente vive é com medo de estar quando quer.