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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mar

Quando pela primeira vez vi o mar, era senão um quase-ser. Tropeçava em meus próprios pés e soltava barulinhos únicos e irreproduzíveis pela boca. Não sabia meu nome, nem onde eu estava. Ainda assim, e de imediato, rodopiei quatro vezes no instante em que meus pés tocaram a água, dei três pulinhos e cai de bunda na areia. Tinha covinhas nas bochechas de tanto sorrir. Não passaram mais de 5 minutos até eu me salgar. Sem saber ser alegre de boca fechada, engoli água e solucei até a onda me pegar. Fui afundando na areia molhada como se recebesse um carinho refrescante, e não tive medo quando entalei. Fiz uma dançinha sentada pra me soltar e, num impulso, dei meu primeiro passo firme.
Depois desse dia, virei gente. O mar foi minha primeira descoberta.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fragmentos

Escuta, eu não tenho memória. Não sei quantos anos eu tenho, qual foi nossa última conversa, o que eu comi no almoço nem que livro acabei de ler. Não me lembro o porquê dos porquês, as causas ou as razões; os fatos.

Mas, olha, me lembro do cheiro da casa da vó, quando batia vento no fim de tarde. Do gosto da comida quente dentro da boca, quando íamos comer perto do rio. Me lembro que meu pai tinha um dégradé de cores na barba, e que quando batia sol todas as cores viravam uma só. Do timbre da voz querida quando dizia alô. Me lembro do incomodo nos pés quando pisava nas pedrinhas no caminho para a praia, e da dança que eu fazia para me desvencilhar delas. Do vai e vem das ondas e da areia seca, molhada, seca, molhada.

Me lembro da música que estava tocando no bar da primeira vez que te vi, e que o seu sorriso vai mais pra direita do que pra esquerda. Eu sei quantas vezes eu suspirei antes de dizer que te amo, quantos passos dei até te encontrar, qual era a cor do céu e que o chão tremia suave um pouco antes e até hoje, sempre que te vejo. Mas quando me perguntam quem é, oh, o grande homem, eu não sei dizer.

Não me lembro de você, mas sinto fome toda vez que você cruza a minha esquina.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

naqueles tempos, hoje

peguei aquele cantinho escondido atrás da quadra e rememorei o dia em que eu chorei chorei chorei e você não disse nada. rememorei também momentos ao sol, o chão amarelo, o riso encondido, o riso solto. o medo de ser chamado para responder pergunta difícil no dia da apresentação final. as gravações cheias de graça e o esforço pra fazer bonito. os olhares. o bocejo inevitável às 7 da manhã. rememorei a sensação que eu tinha quando te via pegando material no terceiro armário de lá pra cá.
rememorei com olhos embaçados, sem saber mais se foi no cantinho mesmo, se foi choro choro choro ou só choro, se o riso era escondido ou não, se a pergunta era mesmo difícil, se o armário era o terceiro de lá pra cá. quis lembrar como é que eu escrevia, naqueles tempos. me vi fora de mim há 6 anos atrás, refletida em 120 outros, iguais. rememorei quem eu era, fora de mim e dentro de mim. me vi outra, sendo a mesma. e não foi saudade o que eu senti, foi alívio - e um pouco de sono.

domingo, 9 de maio de 2010

Vivi

Primeiro, andando de um lado para o outro do quarto, ela começava a contar a história, sempre a mesma, e era sempre como se fosse a primeira vez. Contava com uma voz calma e cuidadosa, escolhendo bem cada palavra, detalhando cada cena da forma mais minuciosa já vista. As descrições eram saborosas: a casa tinha paredes de chocolate, telhado de suspiro, as cadeiras eram comestíveis, a mesa era feita de biscoito e as crianças que ali entravam não conseguiam se conter com tantas tentações.

Depois, vendo as duas netas já no embalo do sono, acabava por deitar-se também, mas continuava contando, detalhadamente, até que o sono se impunha sobre ela. O final da história, então, ficava pro dia seguinte.

Não é de se estranhar que todos gostassem dela. Quando ria, fechava os olhos e balançava um pouquinho os ombros de um jeito tão gostoso de ver que quem estivesse perto acabava por rir também. Guardava balas de chocolate num armário e dava aos netos naqueles momentos em que eles costumavam pensar que os adultos eram uns chatos, que gostavam de verduras e não deixavam ninguém comer doces antes do almoço. Ela deixava. Mas também oferecia laranjas, que comia com muito gosto mais de uma vez ao dia.

Prestava muita atenção no que cada um gostava de comer, e preparava comidas especiais quando recebia visitas. Cozinhava maravilhosamente. Tinha alguns cadernos de receitas escritos por ela mesma, os quais são dignos de publicação pelos comentários que ela acrescentava às receitas: "mexa bem, até encher o saco".

Tinha um senso de humor único. Falava bobagens e em seguida ria sozinha. Sempre perdia os óculos. Sempre os achava. Desenhava rostos femininos e flores sem nunca se cansar. Inventava apelidos tirados de personagens de filmes antigos. Gostava dos cabelos das netas.

- Ah, quanto cabelo! Que brilho! Veja só o meu, tão fininho, tenho que fazer permanente para ficar mais cheinho... - e então fazia tranças nos cabelos das netas, e continuava elogiando.

No Natal, seu filho a tirava para dançar Frank Sinatra e era uma alegria.

- Que sorte a minha, dançar com um homem tão bonito! - dizia ela. Depois, saia cantarolando pela casa a melodia, e a casa inteira dançava também.

Tinha um cheiro gostoso de vó. Era gordinha, assim como uma vó deve ser, pra gente poder deitar no colo dela, fingir que é travesseiro e escutar uma história boa.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O papai às vezes tem uns cúmulos de carência...

- Como assim?

Ontem mesmo ele me disse: ei, filhão, não quer tomar água comigo?

Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...