Andava como quem espreita, em busca de calor. Dizia que era
saudade do filho, e quem o via notava o corpo oco de longe. Chegava quase
sumido nos lugares, cumprimentava com um aceno, quase sem querer. Era oco de
tanta saudade. Tinha o olhar triste, como quem acaba de receber notícia ruim, e
no entanto a vida só lhe trazia sortes. Aos que percebiam, discretos, que
existia ali uma busca, uma porta se fechava. Não era possível compartilhar
calor com aquele corpo, já oco de tudo, sem chance de se aquecer. Nas
frustradas tentativas de aconchegar aquele coração, o que acontecia parecia ser
o contrário. Quanto mais se tentasse aproximar, mais arredio o corpo ficava.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
sexta-feira, 17 de junho de 2016
noite
O sonâmbulo
refletindo
fala o preâmbulo
rindo
o companheiro,
ao lado,
não vê acordado
o que ele,
desamparado,
enxerga dormindo
terça-feira, 7 de junho de 2016
memórias
Guardar as lembranças em uma caixinha enfeitada,
pintada à mão.
Louvá-la quando convém.
Não lustrar demais; deixar poeira onde poeira tem.
A caixinha não mede espaço, cabe o que vem
– ventania, disritmia também.
Escolher bem, pois, o momento em que se cristaliza
uma recordação.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
mudança
Sua casa não é minha, mas me vejo em cada quadro,
canto, quarto, quina, coisa. Sua casa não é minha, mas tô nela em forma de
vaso, de flor, de cor. Nos copos de pinga, no teto que pinga, na tinta que
respinga. Nas almofadas, nas molduras, nas velas, nas panelas. Tô nas janelas. Sua
casa não é minha, mas é tão minha. Tô na mancha do sofá, no arranhado da porta,
no amassado do fogão. Tô no chão, tô no colchão. Tenho me retirado dela como que
em vão. Às vezes esqueço um suspiro, noutras respiro. Tem dias que nada levo,
só relevo. De pouco em pouco vi que, na tentativa de me tirar do que não é meu,
mas me tem, me desfiz de mim. Confuso? Sim. Sua casa não é minha, mas estou
nela tanto que, na ânsia de me colocar na minha própria casa, achei que
precisava me subtrair da sua. E que surpresa boa quando entendi que, em questão
de alma, diferente do corpo, dá pra se estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Minha casa é muito minha, mas tem um eu meu que mora na sua.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
amor engavetado
Tem tanta coisa no meu armário.
Hoje mesmo achei você, disfarçado de papel:
5 cartas escritas à mão.
Junto delas, amor empoeirado.
No meu armário não cabe mais nada,
Mas amor eu sempre encontro um jeito de guardar.
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Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...
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Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...
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Se ele quer, I care
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Juntam-se idéias pequenos raios de lua Miram-se espelhos de almas boas iguais Assistem-se imagem nos olhos inquietos de imaginação Cansam-se...