segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
a volta
E então, pois, que é. Na pequenhez nossa, no ir e vir incessante, nos relâmpagos de lembrança ou fantasia, no cheiro que a gente guarda dentro, no ar que vem de fora, em tudo o que aparece e some, em tudo que fica, em mim quando sou eu, quando não sou, em vocês todos, ausentes, presentes, nos passos se distanciando, noutros passos chegando, em todos os momentos, tanto, e sempre, sobre todas as coisas, é tão difícil voltar.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
(tudo que não invento é mentira)
Pelo brilho dos olhos viu
o que não viu,
imaginou.
Pelos buracos entre pessoas
era o reflexo do brilho seu
que fazia a imagem dela,
ora!
e então já a amava
Se era invenção, tudo aquilo?
claro
Mas tão tão inventado que,
mais claro do que claro,
era real.
o que não viu,
imaginou.
Pelos buracos entre pessoas
era o reflexo do brilho seu
que fazia a imagem dela,
ora!
e então já a amava
Se era invenção, tudo aquilo?
claro
Mas tão tão inventado que,
mais claro do que claro,
era real.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
New York
Compre, corra, compre. Corra para comprar. Não pense, compre. Não corra, compre. Corra sem pensar, compre. Não pare, corra para comprar. Não corra, pare, compre. Pare sem pensar, compre. Compre sem pensar. Não perca, não passe, não pense, não desista, não recuse. Compre. Você merece. New York corracompre. New York corrompre. New York corrompe.
domingo, 30 de janeiro de 2011
A partida
Toc-toc-toc, no meio do meu quase. Fiz que fui, mas não cheguei. Ou. Ali, de repente, parei fundo no chão e percebi que não chegar era mais fácil do que chegar. Nem fiz trim-trim quando descobri. Fiquei, apenas, observando o passar do tempo. Pensei no ar entrando na boca e engoli, para guardar um pouquinho lá dentro. Nem não fiz nada, só existi, muda, o ar entrando e saindo. Era a sensação do tempo passando dentro de mim que me fazia - num plim-plim-plim de minuto - começar a ir, de novo, sempre, em direção à. No meio do meu quase lá, inevitável como o ar soprando na gente, trim-trim distraindo o fim, nunca que eu chegava.
Então, num dia de partida como qualquer outro, um fiozinho tênue desses de marionete me puxou para trás, como se tentasse me avisar pela força do ar, do tempo, do sopro dentro da gente, se hoje mesmo você chega, e acaba, sem meio quase lá, por inteiro, o que é que vai fazer amanhã?
Parei fundo no chão, entendendo que chegar não era consequência óbvia de partir, e, por isso, talvez fosse desnecessário. Puxei um trago de ar e, devagar, fui soltando.
Então, num dia de partida como qualquer outro, um fiozinho tênue desses de marionete me puxou para trás, como se tentasse me avisar pela força do ar, do tempo, do sopro dentro da gente, se hoje mesmo você chega, e acaba, sem meio quase lá, por inteiro, o que é que vai fazer amanhã?
Parei fundo no chão, entendendo que chegar não era consequência óbvia de partir, e, por isso, talvez fosse desnecessário. Puxei um trago de ar e, devagar, fui soltando.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Mar
Quando pela primeira vez vi o mar, era senão um quase-ser. Tropeçava em meus próprios pés e soltava barulinhos únicos e irreproduzíveis pela boca. Não sabia meu nome, nem onde eu estava. Ainda assim, e de imediato, rodopiei quatro vezes no instante em que meus pés tocaram a água, dei três pulinhos e cai de bunda na areia. Tinha covinhas nas bochechas de tanto sorrir. Não passaram mais de 5 minutos até eu me salgar. Sem saber ser alegre de boca fechada, engoli água e solucei até a onda me pegar. Fui afundando na areia molhada como se recebesse um carinho refrescante, e não tive medo quando entalei. Fiz uma dançinha sentada pra me soltar e, num impulso, dei meu primeiro passo firme.
Depois desse dia, virei gente. O mar foi minha primeira descoberta.
Depois desse dia, virei gente. O mar foi minha primeira descoberta.
sábado, 1 de janeiro de 2011
paradoxal
Viver com você é como tomar sorvete com sal, andar de bicicleta na água, dançar sem música, sair nua na rua deserta. É olhar pro céu e não saber se faz sol ou se chove, é pisar em ovos e cálices de vidro sem quebrar nada. É viver na iminência de quebrar, e torcer, às vezes, pra que quebre, pra que tudo se desfaça e se faça de novo, novo. É desejar que não fosse, só pra poder ser mais. É sentir uma dor tão intensa que faz cócegas, é rir chorando, sem saber se o que é é, ou só parece. É senão uma sensação de flutuar pelos fios de cabelo sem perceber quando o vento bate de um lado ou de outro. Viver com você é levantar as sobrancelhas todos os dias, indagando sem dizer, como é que eu posso te amar sem te entender.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Olhos que cheiram
Coisa rara os encontros com os outros, pensou. Enquanto observava dois cachorros se cheirando minuciosamente na beira do mar, imaginava se os humanos também se cheiravam, de alguma forma, quando se conheciam. Acreditava que sim, que pelo olhar as pessoas também se cheiravam. Era por isso que tanto observava antes de falar. Queria saber com quem estava lidando, antes de lidar, e por isso observava com grandes olhos assustados tudo o que aparecesse na sua frente. Não falava uma palavra sequer antes de cheirar. E dos cheiros que conseguia captar formava uma ideia do que viria a seguir, e - espantada - quase nunca errava.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Fragmentos
Escuta, eu não tenho memória. Não sei quantos anos eu tenho, qual foi nossa última conversa, o que eu comi no almoço nem que livro acabei de ler. Não me lembro o porquê dos porquês, as causas ou as razões; os fatos.
Mas, olha, me lembro do cheiro da casa da vó, quando batia vento no fim de tarde. Do gosto da comida quente dentro da boca, quando íamos comer perto do rio. Me lembro que meu pai tinha um dégradé de cores na barba, e que quando batia sol todas as cores viravam uma só. Do timbre da voz querida quando dizia alô. Me lembro do incomodo nos pés quando pisava nas pedrinhas no caminho para a praia, e da dança que eu fazia para me desvencilhar delas. Do vai e vem das ondas e da areia seca, molhada, seca, molhada.
Me lembro da música que estava tocando no bar da primeira vez que te vi, e que o seu sorriso vai mais pra direita do que pra esquerda. Eu sei quantas vezes eu suspirei antes de dizer que te amo, quantos passos dei até te encontrar, qual era a cor do céu e que o chão tremia suave um pouco antes e até hoje, sempre que te vejo. Mas quando me perguntam quem é, oh, o grande homem, eu não sei dizer.
Não me lembro de você, mas sinto fome toda vez que você cruza a minha esquina.
Mas, olha, me lembro do cheiro da casa da vó, quando batia vento no fim de tarde. Do gosto da comida quente dentro da boca, quando íamos comer perto do rio. Me lembro que meu pai tinha um dégradé de cores na barba, e que quando batia sol todas as cores viravam uma só. Do timbre da voz querida quando dizia alô. Me lembro do incomodo nos pés quando pisava nas pedrinhas no caminho para a praia, e da dança que eu fazia para me desvencilhar delas. Do vai e vem das ondas e da areia seca, molhada, seca, molhada.
Me lembro da música que estava tocando no bar da primeira vez que te vi, e que o seu sorriso vai mais pra direita do que pra esquerda. Eu sei quantas vezes eu suspirei antes de dizer que te amo, quantos passos dei até te encontrar, qual era a cor do céu e que o chão tremia suave um pouco antes e até hoje, sempre que te vejo. Mas quando me perguntam quem é, oh, o grande homem, eu não sei dizer.
Não me lembro de você, mas sinto fome toda vez que você cruza a minha esquina.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
naqueles tempos, hoje
peguei aquele cantinho escondido atrás da quadra e rememorei o dia em que eu chorei chorei chorei e você não disse nada. rememorei também momentos ao sol, o chão amarelo, o riso encondido, o riso solto. o medo de ser chamado para responder pergunta difícil no dia da apresentação final. as gravações cheias de graça e o esforço pra fazer bonito. os olhares. o bocejo inevitável às 7 da manhã. rememorei a sensação que eu tinha quando te via pegando material no terceiro armário de lá pra cá.
rememorei com olhos embaçados, sem saber mais se foi no cantinho mesmo, se foi choro choro choro ou só choro, se o riso era escondido ou não, se a pergunta era mesmo difícil, se o armário era o terceiro de lá pra cá. quis lembrar como é que eu escrevia, naqueles tempos. me vi fora de mim há 6 anos atrás, refletida em 120 outros, iguais. rememorei quem eu era, fora de mim e dentro de mim. me vi outra, sendo a mesma. e não foi saudade o que eu senti, foi alívio - e um pouco de sono.
rememorei com olhos embaçados, sem saber mais se foi no cantinho mesmo, se foi choro choro choro ou só choro, se o riso era escondido ou não, se a pergunta era mesmo difícil, se o armário era o terceiro de lá pra cá. quis lembrar como é que eu escrevia, naqueles tempos. me vi fora de mim há 6 anos atrás, refletida em 120 outros, iguais. rememorei quem eu era, fora de mim e dentro de mim. me vi outra, sendo a mesma. e não foi saudade o que eu senti, foi alívio - e um pouco de sono.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Avesso
Do não, não, fez-se o sim.
Do sim, hum, sim, fez-se o somos.
Do somos, sim, hum, somos, fez-se o vamos.
Então se vamos, somos. Sim?
Não, não.
Do sim, hum, sim, fez-se o somos.
Do somos, sim, hum, somos, fez-se o vamos.
Então se vamos, somos. Sim?
Não, não.
sábado, 6 de novembro de 2010
[di]vagando na madrugada
frio calor frio calor. coça coça, frita. água, xixi. coça. ônibus carro rua funk. carro com funk. sono sem sono sono. ele também não consegue. água, xixi. frita frita. amanhã, hoje, ontem, amanhã. amanhã e depois. coça. será que é minha culpa? culpa pai conversa culpa será? amanhã escola ontem eu era aluna amanhã volto e não sou. observo. eu era? eu fui. o que sou? fome. sono sono sem sono. ele dorme, eu olho. calor calor, coça coça. relatório amanhã texto ah, ler, aula resumo louca educação ler relatório. namorar agora não amanhã depois ou não também pra que serve será mesmo? não quem sabe amor existe? educação 11 horas professora relatório observo aluna amanhã escola. tempo sem tempo ter tempo. alucina no tempo. pensar. não pensar. dormir. frita frita. não pensar. sono água xixi. fome, despertador.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
5 linhas
Quando nasci, senti tua falta.
Sem te conhecer, mas sabendo-te meu, esperei.
Aos 31 anos e 4 meses te conheci. Desesperei.
Meu nome é Maria José, sempre que penso em você, me lembro de mim.
Qual é o teu nome?
Sem te conhecer, mas sabendo-te meu, esperei.
Aos 31 anos e 4 meses te conheci. Desesperei.
Meu nome é Maria José, sempre que penso em você, me lembro de mim.
Qual é o teu nome?
domingo, 29 de agosto de 2010
Norma
A, ante, perante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, por, sem, sob, sobre, trás, atrás de, dentro de, para com. Como, durante, exceto, fora, mediante, salvo, segundo, senão, visto. Abaixo de, acerca de, acima de, ao lado de, a respeito de, de acordo com, em cima de, embaixo de, em frente a, ao redor de, graças a, junto a, com, perto de, por causa de, por cima de, por trás de. Pelo, pela, ao, aonde. Do, dos, da, das, dum, duns, duma, dumas. No, nos, na, nas, num, numa, nuns, numas. Bem, mal, melhor, pior, assim, aliás, depressa, devagar, como, sobremodo, sobretudo, sobremaneira. Não, nem, nunca, jamais. Muito, pouco, mais, menos, demasiado, quanto, quão, tanto, tão, assaz, tudo, todo, bastante, quase, nada. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Eu, você e todos nós.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Destino
Não acredito em horóscopo, fadas, duendes, fantasmas, espíritos, cartomantes, tarô, búzios, mágica, bruxas. Não acredito em Deus. Mas, contradizendo tudo isso, por vezes tenho um pensamento sobre o meu começo que muito me agrada, e até mesmo me fortalece:
Quando nasci soprei, pouco e devagar. Fui me impondo à vida com tal determinação que aqui estou. Não era pra ser, e foi. Então penso que era pra ser sim, que eu, menor do que o menor bebê que existe, tinha no meu pequeno corpo insuficiente um bocado de vida escondida, que pulsava louca para viver de corpo inteiro. Eu insisti na vida, e ela nasceu dentro de mim.
Não acredito em destino, mas que ele existe, existe.
Quando nasci soprei, pouco e devagar. Fui me impondo à vida com tal determinação que aqui estou. Não era pra ser, e foi. Então penso que era pra ser sim, que eu, menor do que o menor bebê que existe, tinha no meu pequeno corpo insuficiente um bocado de vida escondida, que pulsava louca para viver de corpo inteiro. Eu insisti na vida, e ela nasceu dentro de mim.
Não acredito em destino, mas que ele existe, existe.
domingo, 9 de maio de 2010
Vivi
Primeiro, andando de um lado para o outro do quarto, ela começava a contar a história, sempre a mesma, e era sempre como se fosse a primeira vez. Contava com uma voz calma e cuidadosa, escolhendo bem cada palavra, detalhando cada cena da forma mais minuciosa já vista. As descrições eram saborosas: a casa tinha paredes de chocolate, telhado de suspiro, as cadeiras eram comestíveis, a mesa era feita de biscoito e as crianças que ali entravam não conseguiam se conter com tantas tentações.
Depois, vendo as duas netas já no embalo do sono, acabava por deitar-se também, mas continuava contando, detalhadamente, até que o sono se impunha sobre ela. O final da história, então, ficava pro dia seguinte.
Não é de se estranhar que todos gostassem dela. Quando ria, fechava os olhos e balançava um pouquinho os ombros de um jeito tão gostoso de ver que quem estivesse perto acabava por rir também. Guardava balas de chocolate num armário e dava aos netos naqueles momentos em que eles costumavam pensar que os adultos eram uns chatos, que gostavam de verduras e não deixavam ninguém comer doces antes do almoço. Ela deixava. Mas também oferecia laranjas, que comia com muito gosto mais de uma vez ao dia.
Prestava muita atenção no que cada um gostava de comer, e preparava comidas especiais quando recebia visitas. Cozinhava maravilhosamente. Tinha alguns cadernos de receitas escritos por ela mesma, os quais são dignos de publicação pelos comentários que ela acrescentava às receitas: "mexa bem, até encher o saco".
Tinha um senso de humor único. Falava bobagens e em seguida ria sozinha. Sempre perdia os óculos. Sempre os achava. Desenhava rostos femininos e flores sem nunca se cansar. Inventava apelidos tirados de personagens de filmes antigos. Gostava dos cabelos das netas.
- Ah, quanto cabelo! Que brilho! Veja só o meu, tão fininho, tenho que fazer permanente para ficar mais cheinho... - e então fazia tranças nos cabelos das netas, e continuava elogiando.
No Natal, seu filho a tirava para dançar Frank Sinatra e era uma alegria.
- Que sorte a minha, dançar com um homem tão bonito! - dizia ela. Depois, saia cantarolando pela casa a melodia, e a casa inteira dançava também.
Tinha um cheiro gostoso de vó. Era gordinha, assim como uma vó deve ser, pra gente poder deitar no colo dela, fingir que é travesseiro e escutar uma história boa.
Depois, vendo as duas netas já no embalo do sono, acabava por deitar-se também, mas continuava contando, detalhadamente, até que o sono se impunha sobre ela. O final da história, então, ficava pro dia seguinte.
Não é de se estranhar que todos gostassem dela. Quando ria, fechava os olhos e balançava um pouquinho os ombros de um jeito tão gostoso de ver que quem estivesse perto acabava por rir também. Guardava balas de chocolate num armário e dava aos netos naqueles momentos em que eles costumavam pensar que os adultos eram uns chatos, que gostavam de verduras e não deixavam ninguém comer doces antes do almoço. Ela deixava. Mas também oferecia laranjas, que comia com muito gosto mais de uma vez ao dia.
Prestava muita atenção no que cada um gostava de comer, e preparava comidas especiais quando recebia visitas. Cozinhava maravilhosamente. Tinha alguns cadernos de receitas escritos por ela mesma, os quais são dignos de publicação pelos comentários que ela acrescentava às receitas: "mexa bem, até encher o saco".
Tinha um senso de humor único. Falava bobagens e em seguida ria sozinha. Sempre perdia os óculos. Sempre os achava. Desenhava rostos femininos e flores sem nunca se cansar. Inventava apelidos tirados de personagens de filmes antigos. Gostava dos cabelos das netas.
- Ah, quanto cabelo! Que brilho! Veja só o meu, tão fininho, tenho que fazer permanente para ficar mais cheinho... - e então fazia tranças nos cabelos das netas, e continuava elogiando.
No Natal, seu filho a tirava para dançar Frank Sinatra e era uma alegria.
- Que sorte a minha, dançar com um homem tão bonito! - dizia ela. Depois, saia cantarolando pela casa a melodia, e a casa inteira dançava também.
Tinha um cheiro gostoso de vó. Era gordinha, assim como uma vó deve ser, pra gente poder deitar no colo dela, fingir que é travesseiro e escutar uma história boa.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Sobre o amor (II)
- Ah, sim, nós temos um futuro tão lindo pela frente!
Ele balançava a cabeça concordando; virava o olho pra cima discordando. Dizia na medida certa aquela única palavra necessária "sim", e ela achava tudo lindo. Depois ele ia embora rindo doce, fingia amor no olhar, mas andava rápido e sem olhar pra trás.
- Ah, como eu te amo...eu te amo!
Ele dizia com convição o esperado "eu também", mas repetia a frase de forma enfadonha três vezes seguidas "eu também, eu também, eu também...", o que ela achava enfático e lindo. Depois encenava um beijo demorado e firme e representava bem o seu papel de macho entusiasmado. Mas em seguida virava de lado e dormia rápido pra esquecer, e sonhava que sonhava com ela, e acordava com ela e sonhava acordado com outra, com ela ao lado.
- Nós vamos casar um dia, não é amor? E ter filhos, e um cachorro, e...e..ah, eu te amo tanto!
Ele dizia o esperado como se fosse lei, e disse sim pra tudo como se fosse não, e se casou com ela como se fosse destino, e teve três filhos como se fossem dois, e comprou um cachorro como se fosse um gato, e morreu ao lado dela como se fosse feliz.
Ele balançava a cabeça concordando; virava o olho pra cima discordando. Dizia na medida certa aquela única palavra necessária "sim", e ela achava tudo lindo. Depois ele ia embora rindo doce, fingia amor no olhar, mas andava rápido e sem olhar pra trás.
- Ah, como eu te amo...eu te amo!
Ele dizia com convição o esperado "eu também", mas repetia a frase de forma enfadonha três vezes seguidas "eu também, eu também, eu também...", o que ela achava enfático e lindo. Depois encenava um beijo demorado e firme e representava bem o seu papel de macho entusiasmado. Mas em seguida virava de lado e dormia rápido pra esquecer, e sonhava que sonhava com ela, e acordava com ela e sonhava acordado com outra, com ela ao lado.
- Nós vamos casar um dia, não é amor? E ter filhos, e um cachorro, e...e..ah, eu te amo tanto!
Ele dizia o esperado como se fosse lei, e disse sim pra tudo como se fosse não, e se casou com ela como se fosse destino, e teve três filhos como se fossem dois, e comprou um cachorro como se fosse um gato, e morreu ao lado dela como se fosse feliz.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
quem cutuca minha ferida sou eu
Hoje, no ponto de ônibus, enquanto eu cutucava com prazer - sim - meu machucado no joelho, um moço achou que era prudente me avisar que cutucar ferida não faz bem pra gente.
- Sou ciclista, vivo me machucando, não faz isso não menina!
Eu achei que não valia a pena discutir. Parei na hora, até ele ir embora e eu começar tudo de novo.
.
.
.
Ora seu moço, o que é que você sabe sobre a minha ferida pra dizer que eu não devo fazê-la sangrar de novo? E se o meu prazer é, justamente, fazer sangrar e sangrar e sangrar, pra sempre, a mesma ferida?
- Sou ciclista, vivo me machucando, não faz isso não menina!
Eu achei que não valia a pena discutir. Parei na hora, até ele ir embora e eu começar tudo de novo.
.
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Ora seu moço, o que é que você sabe sobre a minha ferida pra dizer que eu não devo fazê-la sangrar de novo? E se o meu prazer é, justamente, fazer sangrar e sangrar e sangrar, pra sempre, a mesma ferida?
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Tentativa frustrada de matar um amor
Um dia, ele depositou todo o amor que tinha em uma pessoa - A pessoa. Todas as outras que vieram depois tiveram de se conformar com o vazio que ela deixou, com uma foto despedaçada no canto do quarto e com o brilho eterno de uma mente cheia de lembranças.
(quando um amor demora muito pra passar, é porque ele quer mesmo é ficar)
(quando um amor demora muito pra passar, é porque ele quer mesmo é ficar)
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Aparências
Vinha com uma firmeza de estremecer. Não demonstrava qualquer tremor nas mãos, piscar de olhos, exitação na fala. Tinha essa brilhante maneira de se mostrar próximo sendo distante, e de estar distante mesmo quando próximo. Era paradoxalmente o ser mais primitivo e evoluído que se possa imaginar. Não demonstrava qualquer tipo de sofrimento ou dúvida, nunca. Não deixava e sobretudo não queria que ninguém se sentisse mal por sua causa. Distribuia afeto e carinho para quem merecia tapas. Não falava sobre remorso, inveja ou ciúme. Não deixava comida no prato. Dava abraços demorados que reconfortavam a alma, escrevia liricamente para quem precisasse ouvir, perdoava muito, muitos.
Quando chegava em casa, chorava escondendo o rosto com as mãos, sem coragem de se olhar no espelho e decobrir que era humano, demasiadamente.
Quando chegava em casa, chorava escondendo o rosto com as mãos, sem coragem de se olhar no espelho e decobrir que era humano, demasiadamente.
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Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...
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Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...
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Se ele quer, I care
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Juntam-se idéias pequenos raios de lua Miram-se espelhos de almas boas iguais Assistem-se imagem nos olhos inquietos de imaginação Cansam-se...