quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Aparências
Quando chegava em casa, chorava escondendo o rosto com as mãos, sem coragem de se olhar no espelho e decobrir que era humano, demasiadamente.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
sábado, 10 de novembro de 2007
Já de saída minha estrada entortou...
Não digo que foi doloroso pra mim porque não me lembro, mas deve ter sido a dor mais intensa que já senti, e que já sentiram por mim.
Meu coração já nasceu conturbado. Estava lá, pulsando um pouco menos do que devia, misturando o que não era pra misturar. Era problema sério, desses que mata, disseram os médicos. Aliás, era o mais provável que acontecesse. Operei, sobrevivi, virei bebê gordinho. Cá estou. O problema foi embora pra sempre, dizem.
A cicatriz, no entanto, ficou. Todo dia quando vou tomar banho ela me faz lembrar com alívio que estou viva, sim, tenho um coração que pulsa. Ao mesmo tempo acho curioso pensar que foi só o problema físico se resolver pra que o problema metafísico aparecesse. A cicatriz me deixa a impressão de que eu não tive saída, de algum jeito meu coração nasceu e vai ser sempre conturbado.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Sobre o amor (I)
Ela olhava, não dizia nada. Depois fugia de mim, fingia ódio no olhar, mas andava meio caindo pra frente, era amor aquilo, queria jorgar-se em meus braços, dava pra ver.
- olha pra mim e diz que não me ama.
Ela não dizia nada, olhava com tristeza e fugia de mim. Mas ela me amava sim, eu sentia pelo jeito de andar, despencando pro lado esquerdo, bem perto de mim.
- criatura, por que não diz uma palavra de amor, nunca?
Ela não dizia, não disse, nunca vai dizer, mas se inclina toda pra traz, quando me vê, como se estivesse fugindo. Eu sei, porém, que no fundo ela está é se declarando ao contrário.
sexta-feira, 8 de setembro de 2006
3 tempos
...uma chuvinha fina caindo nos olhos.
- você vai vomitar?
...uma chuvinha enorme dentro da gente, às 4 horas na minha casa combinado então?
vontade de tomar chocolate quente denso denso. anota meu telefone caso mude de idéia.
...é tempestade eu acho, começa com um trovão e quando vê invadiu o mundo. mas foi tudo muito certo, tudo muito no seu tempo. sexta feira meus pais vão no cinema.
- eu sei que às vezes não é muito fácil me levar a sério, mas eu te adoro.
- eu também te adoro, cada dia mais...
ça va très bien euh hum uee...se a gente falar francês nasce sol. d’accord...
outro dia ganhei uma rosa, no outro um bilhete e no outro um livro. outro dia dormi com você 4 dias, mas isso já faz cinco anos. eu quero namorar com você. também ganhei isso.
- você sabia que a espuma do mar são os testículos de Urano?
fez só chuva, mas eu gostei. chuvinha nagente o dia todo, kalookawana.
pega a água dessa garrafa aqui e joga tudo naquele carro, vai, é gostoso! alívio. pode me contar tudo, agora. desde merda até mitologia grega. um dia a gente vai até a ilha da avenida paulista e passa o dia todo conversando, sentindo frio. depois a gente toma milkshake de flocos. eu podia passar a vida assim, com você, mas fica longe quando eu for falar no telefone porque eu tenho vergonha...não iria enjoa nunca.
- é que eu te amo.
quando eu era pequena o porteiro perguntava: paulinha, você é bonita ou feia? eu respondia: feia não! e olhava de longe o menininho do outro lado da rua, sobrancelhas franzidas dizendo
- que ridículo! isso é ridículo....ridículo!
depois ele fazia cara de safado e botava a língua de canto na boca, saindo um pouquinhozinho pra fora.
quando eu era pequena, eu queria te conhecer, sempre quis sabia? mas você parava do outro lado da rua e só me mandava um beijinho, que chegou aqui faz pouco tempo, 4 meses cinco anos um dia no cinema. ele estava molhado da chuva, e ainda está.
quarta-feira, 3 de maio de 2006
=p
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Perguntou se eram mesmo bananas, porque mais pareciam rolhas. O outro, que até então via apenas bananas e mais bananas, começou também a questionar-se:
- rolhas-por-que-não?
por-que-não-rolhas?
- não-por-que-rolhas!
E saíram para os quais colher coágulos não valia.
Lá, onde não colhiam coágulos porque não valia, decidiram hummmmm...colher coágulos! Por que não valia? Colheram coágulos com rolhas...
...as quais pareciam bananas. Viram-se então envolvidos novamente pelo enigma das banarolhas ou rolhananas. Um que as deglutia, e outro que vedava garrafas. Sem saber, claro, que de fato nada daquilo existisse embaixo d’água.
Um dizia ao outro:
- elas voam, elas voam! São banarolhas aéreas...poxa...
E o outro respondia pro um:
- eu sempre quis voar...
Nada então faziam além de decolar e aterrissar daquelas banarolhas, banais bananas ninando feito ninjas em roliças rolhas redondas feito bananas feito rolhas.
Morreram de escoliose.
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domingo, 26 de março de 2006
À
(...) Ela adorava lembrar do que não sabia. Porque isso era inventar. E era tudo o que conseguia fazer. (...)
segunda-feira, 6 de março de 2006
beijo na careca
- ixi moça, já faz 2 meses que ele se mudou!
Então meus olhos quiseram beijar a careca daquele porteiro, mas apenas sorri de volta, cheia de gratidão. Fechei o portão e desci a ladeira saltitando, porque não te conhecer é bem mais fácil do que sentir a sua falta.
domingo, 1 de janeiro de 2006
2006
Querendo-me sua toda vez que não te vejo só porque não te vejo e isso basta para ter saudades sendo você ninguém e todo mundo ou qualquer homem aí que já foi ou que será Mas não importa muito porque eu sempre te quero e só isso já me faz vulnerável e eu não quero ser Preciso aprender a não querer-te sem querer Sem contar aqueles dias em que ninguém mais vê aquilo que eu já vi e não adianta nem comentar porque não vai mudar e quem sou eu pra tentar abrir os olhos dos outros mas no fundo eu acho que eles abrem sozinhos assim pouco a pouco ou talvez eu até ajude a abri-los O problema não são os outros sou eu Precisando abstrair e perceber que não é como eu gostaria que fosse Adaptar-me Eu não vou mais piscar porque quando pisco fico inconsciente Eu não quero retroceder Ver uma situação se repetir e sentir que fui uma filha da puta porque agora eu estou do outro lado e o ponto de vista muda tudo Me desculpa Aprender que eu te amo acima daquilo tudo Conseguir fazer isso ter sentido Não retroceder
4, 3, 2, 1
mãos dadas pular na piscina saia flutuando tá parecendo a iemanjá pular de novo 7 vezes muita água estou sem ar ai que coisa de sedentária puta merda como eu te amo muita água vamos fazer corrente tá quente aqui eu te amo eu te amo eu te amo acho que vou chorar tá escuro ninguém vai ver eu te amo queria que todo mundo que eu amo estivesse aqui nem chorei engoli água mesmo agora ta frio quero uma toalha e um colo quentinho
Feliz ano novo
segunda-feira, 19 de dezembro de 2005
Café
Vou me afogar num copo d’água, por hoje. Espero que demore o dia todo senão vai sobrar muito tempo livre e eu detesto tempo livre. Parece que se multiplica e reverbera e invade até o que não era tempo livre. Infernal, essa tal liberdade das férias.
A verdade é que eu cansei disso aqui. É tudo branco e é sempre branco quando o que eu quero é vermelho, sei lá, talvez vinho. E é tudo branco e igual, e os lençóis são sempre brancos e as paredes e o teto e a tela do Word também é branca. E a minha cabeça é branca também, porque é oca. Cabeça oca.
Além disso, tem a chuva. Parece que não cansa de chover por aqui, incrível. Já molhou tudo, molhou? Quer que eu seque só pra você chover de novo? E depois? Depois dá na tevê que o povo já se cansou de tanto o céu desabar. É essa chuva aí que aumenta o tempo livre. Multiplica por três vezes dez a quarta. Matemática da vida, olha só.
Eu queria mesmo era que fizesse sol, e que eu fosse andar pela rua e entrasse num desses cafés, que ninguém vai mas todo mundo já foi. Desses inexistentes que ficam nas esquinas esquecidas, por aí. E estaria com cheiro de café, e isso iria me deixar feliz. Eu não gosto de café, mas o cheiro é bom. É que nem cigarro. Eu gosto do cheiro de cigarro, mas só quando ta apagado. Quando acende dá falta de ar, ai eu falo poxa, apaga esse cigarro vai, pra que isso agora? Mas quase sempre o cigarro num apaga não. De qualquer forma, o cheiro iria ser de café, não de cigarro. E então eu iria me sentar de frente pra janela, porque eu gosto de ver as pessoas andando na calçada. Mas só quando faz sol. Ah não, antes disso eu iria olhar pro cara de cachos ali sentado de frente pra janela, fazendo as palavras cruzadas. É verdade que gosto de olhar as pessoas andando na calçada, mas ok, admito que dessa vez seria pelo cara de cachos. Vocês sabem como é que são os cachos. Eles balançam. Enfim, eu iria sentar de frente pra janela e os cachos iriam me dizer:
- Delírio, desvario.
E eu responderia:
- Frenesi.E por isso eu então me sentaria mais perto para ajudá-lo nas palavras cruzadas. E ele estaria tomando café, e até me ofereceria um, mas eu diria que prefiro um bombom de trufa. Ele estaria vestindo uma camiseta vinho, não branca, vinho. E de repente me diria olha aquela mulher do outro lado da rua, sentei aqui porque gosto de olhar as pessoas andando na calçada, olha aquela mulher, ela está tentando se equilibrar na muretinha do prédio, mas não consegue. Além dos cachos, teria a barba. Vocês sabem como é que são as barbas. Elas crescem e pinicam. As palavras cruzadas não teriam mais importância, iríamos mesmo olhar a mulher do outro lado da rua, e depois o menininho e o cachorro feio e o homem que tropeçou e quase caiu. Depois não teria mais sol, e iríamos embora. Eu nem perguntei o nome dele, pensaria depois. Mas não faria diferença, porque ele tinha cachos e uma barba e no dia seguinte estaria lá de novo. Frenesi.
É assim, eu cansei disso daqui. Queria mesmo entrar num café com cheiro de café e encontrar cachos e barbas e fazer palavras cruzadas e observar os outros pela janela e depois ir embora, feliz.
Mas parece que não cansa de chover por aqui, incrível. Então eu enchi um copo com água da chuva, e vou me afogar nele. Pra ver se nasce sol amanhã.
domingo, 11 de dezembro de 2005
Vou
Hoje?
Isso
Me leva junto?
Nós nos vemos por lá
Me espera?
Talvez
Me espera vai
Talvez
Você não quer que eu vá?
Você quer ir?
Quero
Sei
Sabe o que?
Nada não. Se você quer ir, vai
Mas e você?
To bem
Mesmo?
Pois é
Você não quer que eu vá
Quem disse?
Eu
Sei
Sabe o que?
Nada não
O que é que você tanto sabe e não me diz hein?
Eu sei que você faz pergunta demais
Faço é?
Olha aí
Olhar o que?
Aí
Aqui?
Isso
Aqui ta fedendo
Sei
Ta sentindo?
É você
Eu?
Isso
Mas o que?
Que fede
Afinal, você vai agora?
Vou
Me leva junto?
nem FODENDO
nossa como você é grosso, o que foi que eu fiz?
Além de fazer pergunta demais, você fede, é isso
Mas só hoje ou sempre?
Sempre. Desde o dia em que seus pais pensaram na idéia de talvez ter um filho
Sério?
Não, lógico que não, quis só enfatizar que você fede PRA CARALHO
Sei
Você sabe né?
O que?
Que fede porra
Qual o cheiro de porra?
Num sabe não?
Talvez
Mas a questão é que você fede
Porra?
Não, não porra. Você fede e ponto
Será que com água sai?
Você toma banho todo dia?
Claro
Então num tem jeito não, você vai feder pra sempre
Você acha?
Acho
Que é que eu faço agora?
Olha, nesses casos é melhor procurar ajuda médica, conheço um especializado em mau odor, genial, fica lá depois do morro cruzando a estradinha quase na divisa do país, sabe? Se quiser eu te faço um mapa, é pra já, em uma semana você chega mas o médico é bom mesmo viu, então é melhor juntar um dinheiro porque pode demorar uns dois meses pra você ser atendida. Mas vale a pena, depois de dois anos você vai notar diferença. Olha só, aqui tá o mapa, meio pequeno né, mas pode ficar com essa lupa aqui, facilita bastante se você estiver num lugar bem iluminado
...Isso não ta me cheirando bem...
JURA?
sexta-feira, 2 de dezembro de 2005
poema número cinco
Com aquela Lua sorrindo pra ti:
No meio da tua rua, chove.
Então chovemos também,
e os corpos de pingos d’água se misturam até sumir...
Depois a chuva toda seca,
e secamos também.
Infinito,
isso que faz chuva secar...
...e também lindo,
mesmo não sendo
lindo mesmo.
terça-feira, 8 de novembro de 2005
Esconde-esconde
A menina hesita
O menino se esconde
A menina já sabe onde
O menino foge
A menina pensa
Corre volta cansa
Ah!, suspira
Meia volta e susto!
O menino grita
A menina ri
O menino tem medo
A menina vem cedo
Rápido vai alcança estica o braço...
PEGA!
O menino segue os passos da menina,
Que o segura por um entrelaçar de mãos.
São assim todos os encontros,
menina e menino brincando de se descobrir.
No vai e vem a menina se descobre dentro dele
de lá pra cá,
pouco a pouco,
assim como descobre ele dentro de si.
Perigo é a menina descobri-lo todo,
e de tanto conhecê-lo não querer mais o seu jogo.
Manhã almoço pôr-do-sol
Almoço pôr-do-sol manhã
Pôr-do-sol manhã almoço
Menina e menino insaciáveis.
Manhã almoço pôr-do-sol
Menina manhã menino
Menino pôr-do-sol menina
Menina e menino almoço.
Descobrindo-se.
A menina está sempre um passo a frente.
Além fez-se noite quente,
menino descoberto pela menina,
ainda um pouco coberta.
É que o menino não sabe descobrir direito...
Deitam na grama úmida
- choveu um bocado -
Olham o céu
- outrora estrelado –
Cantam um samba
- inventado –
E abraçam-se calados.
A menina então,
o descobre por inteiro
e de beijos o cobre.
O menino,
que tanto correu fugiu escondeu,
admite enfim
que só se descobre nela,
com ela,
para ela,
assim...
quarta-feira, 26 de outubro de 2005
Assim assim
eis que surge:
me carrega toda,
assim assim;
me enlaça logo,
tintin por tintin;
me ilumina fogo,
quentin quentin;
me abraça louco,
assim enfim.
Depois fica oco,
me entrega um pouco
e some de mim.
terça-feira, 11 de outubro de 2005
domingo, 25 de setembro de 2005
Olhos de lebre com outros de coruja...
rumo a outros perdidos
jamais quis outros olhares...
- naquela noite -
...que não fossem os seus.
Tanto quis que você,
inseguros dos olhares seus,
quase não viu os meus seus olhares.
Leva-me para onde quiser...
- pensei depois do -
breve desentendimento de olhares seus meus perdidos em outros quaisquer.
E foi assim que,
olhos nos olhos,
fomos um pro outro
nossos, enfim.
terça-feira, 13 de setembro de 2005
metrópole
e duas mãos pesando sobre o inferno.
O não refletido naqueles olhos tristes
e um cheiro de fome insuportável rondando,
dando impressão de miséria.
Mas não é miséria, é pior.
terça-feira, 16 de agosto de 2005
Déjà Vu
a primeira.
Inutilmente combatida,
sustentada por fios de esperança.
De todos os riscos,
o maior.
Deter-me em pensamentos para,
talvez,
alcançar um passado.
Acontece que,
toda vez que me distraio de mim
me aproximo de você.
quinta-feira, 4 de agosto de 2005
"Pro dia nascer feliz"
Encostar na pedra áspera e senti-la pontilhando as costas, os braços, a cabeça deitada. Os olhos a imaginar prazeres nas nuvens já não tão presentes. Poder apreciar o céu nublado se transformando em azul-mar, quando os primeiros raios de sol rasgam o branco-cinza-algodão doce. E os mesmos raios de sol a refletirem no mar e em meus olhos, que sensivelmente se fecham.
Agora, o escuro. Guardo na memória a natureza que vi e as imagens que tenho em mente se confundem com a lembrança recente. O inconsciente (ou consciente?) me aproxima de pessoas ausentes e minha realidade nada mais é do que invenção.
Mesmo assim ainda escuto barulho de grama pisada do meu lado, mergulho de criança no mar, cochicho dos apaixonados beijando-se.
Vai e vem das ondas, encontro com a beirada da pedra, choque. Vai. Vem. Vai e é gostosa a ansiedade de tentar adivinhar quando volta. É...agora! não... nunca consigo pressentir o momento exato da volta das ondas. Fico na expectativa, sem respirar, reparando minuciosamente no barulhinho da espuma do mar, esperando que se choque na pedra e recomece o ciclo. E de repente...choque! ah...faz-me rir o susto que levo ao escutar o encontro tão esperado, que vai e vem, e se repete eternamente. E eternamente é impossível adivinhar quando vem e quando vai. Faz-me rir...
A formiga a contornar-me o corpo deitado, o mosquito zumbindo ao lado, os pés descalços escorregando no chão molhado, o vento sussurrando assobios, o sol aquecendo aos poucos, o frio constante mas também ausente e o barulhinho do esperado
Vai...e vem....
No meio dos intermináveis barulhos de fazer sono gostoso, penso que o mundo é quase perfeito - “agora só falta você...”.
Tiro fotos bonitas para mostrar aos outros o que ainda há para se mostrar de belo, e depois para colar na parede do quarto a fim de me acalmar quando leio os desastres do dia nos jornais. Uma calma que reconforta – ainda existe beleza no mundo! – e inconforma – são poucos os que vêem essa beleza... – ao mesmo tempo.
Abro os olhos apenas porque não estou morta, porque por mim viveria ali deitada na pedra, os olhos fechados a escutar natureza e os pensamentos a inventar utopias.
Eu não sei o que faço aqui, mas parece que hoje o dia nasceu para me ver sorrir - quisera eu que nascesse para ver sorrisos nos rostos todos.
segunda-feira, 25 de julho de 2005
O carteiro e a poeta
Aos nossos encontros raros e filosóficos.
Aos nossos encontros quando não eram raros...
Aos nossos desentendimentos.
Ao nosso atual entendimento, que me faz tão bem.
À tudo que não faz sentido.
Ao pouco convívio, que me faz bem tanto quanto mal.
À sua ausência e à sua essência.
Às suas loucuras cativantes.
Às minhas loucuras também, como essa dedicatória.
À você, Daniel.
Seus dias eram todos iguais. Estava cansado, é fato. Cansado de viver sem sentido, buscando uma explicação para o que é por si só uma incógnita: a vida. A sua, por sinal, fora desde sempre repleta de obrigações e responsabilidades das quais cumpria sem saber o motivo, ou então não cumpria por saber o motivo e não concordar. Era o menino dos contrários.
Nesse dia chegou a questionar-se qual o sentido de fazer uma faculdade, se a partir disso já se tem toda a vida pré-determinada. O que ele queria era o diferente, o não padrão, o estranho, o novo. Queria romper com as regras e sair por aí gritando suas vontades. Queria se rebelar contra as instituições e descobrir o mundo com seus próprios pés, sem que ninguém lhe desse ordens. Queria saltar de uma ponte e cair no mar, pular de pára-quedas no meio da selva, transformar uma idéia em revolução, um passo em uma estrada inteira, um gesto em mil abraços...
Quando sonhar já não agüentava e olhar a lousa já não sustentava, foi salvo pelo sinal de saída. O resto da tarde passou por aí, vagando pelo inconsciente e tentando achar a concentração que não vinha. Pegou um ônibus, desceu em uma praça, tomou um sorvete e nada. De que adiantava tudo aquilo? A razão para suas ações parecia não existir, então pensou que talvez também não existisse: fosse apenas ilusão dos olhos alheios.
De repente veio-lhe uma idéia na cabeça, daquelas que criança tem de vez em quando, e resolveu sair por aí divulgando a maluquice:
- Sabe, o que eu sempre quis mesmo foi ser carteiro, sair por aí entregando cartas, pegando ônibus de graça e conhecendo a cidade inteira! Ou talvez um lixeiro, daqueles que só trabalham a noite, enquanto a cidade dorme...
E nessa de tentar descobrir o que queria ser, ele gastou saliva e fôlego para dizer tudo aquilo o que não queria ser. Enfim, ele só sabia que queria alguma coisa....
Voltou para casa cansado, como de costume. No dia seguinte acordou com a sensação de não ter vivido, levantou com a idéia de parar e acabou seguindo em frente, para algum outro lugar. Longe.
sábado, 11 de junho de 2005
Desacontecendo
pequenos raios de lua
Miram-se espelhos
de almas boas iguais
Assistem-se imagem
nos olhos inquietos de imaginação
Cansam-se conversas
que silenciam e continuam...
Beijam-se longe
cada qual em qual quer
Erguem-se barreiras,
som, estalo, grito
Rompem-se sozinhos
em meio ao sol da meia-noite
Fecham-se portas
que abrem-se para outros
Todos.
Formam-se poças
chuva
lágrima
banho
De tudo restou a foto
água de flores
pétalas inacabadas
Do resto restou o corpo
suas mãos em muitas mãos
minhas mãos nas suas.
"Vi quando começou e me tomou. E vi quando foi se desvanecendo e terminou." - Clarice Lispector
Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...
-
Dizem que exagero E eu aqui, nego: Sinto muito. Quando gosto, expando Quando desgosto, debando Dizem que não falo eu,...
-
Se ele quer, I care
-
Juntam-se idéias pequenos raios de lua Miram-se espelhos de almas boas iguais Assistem-se imagem nos olhos inquietos de imaginação Cansam-se...